Li esse texto de Fritz Utzeri no Jornal do Brasil há algum tempo e achei muito interessante. Eu sei que é grande mas acho que vale a pena ler.Esperto ou corrupto, qual é a diferença?Nas pequenas coisas, aparentemente insignificantes, as maneiras de pensar e agir de um povo se revelam. De que serve indignar-se com Renan & Roriz e no dia-a-dia trafegar pelo acostamento da estrada se houver engarrafamento; desrespeitar o sinal se não houver guarda ou ignorar a placa e estacionar na vaga do paralítico? Vejo isso todos os dias no estacionamento onde deixo meu carro, no Centro. Parece que procuramos sempre a vantagem à custa de pequenos expedientes. Corrupção é outra coisa, pensamos. É roubar grande! Quantos de nós, brasileiros, só não somos corruptos simplesmente porque jamais tivemos a oportunidade de sê-lo? Ou será que, como dizia o imortal Barão de Itararé, corrupção é “aquele grande negócio para o qual não fomos convidados?” Li no domingo passado, numa das colunas mais prestigiadas da imprensa carioca, uma nota sobre a inauguração do Engenhão. O ingresso seria trocado por uma lata de leite em pó, destinada a instituições de caridade. Leia a nota transcrita, ipsis literis do jornal: “Em tempo: Uns torcedores espertos trocaram o leite em pó das latas por areia na inauguração do Engenhão. No ato da troca pelo ingresso, poucos bilheteiros perceberam o golpe.” Percebeu? Não? Leia novamente. Será que é adequado qualificar como “esperto” o torcedor que dá esse golpe para entrar no estádio? Vamos verificar, no Aurélio, o que significa “esperto”. Esperto. [Do lat. vulgo expertu (v. espertar).] Adj. 1. Acordado, desperto. 2. Inteligente, fino, arguto: “Nada lhe escapa, é muito esperto.” 3. Enérgico, vigoroso: movimentos espertos. 4. Espertalhão (1). 5. Forte, vivo: fogo esperto. 6. Quase quente: Estranhou a água do banho que estava esperta. 7. Bras. Gir. V. bacana (1). S.m. 8. Espertalhão (2): O mundo é dos espertos. [Cf. experto.]
11/04/08
Ana Clara
Vamos a espertalhão: Espertalhão: (De esperto + alhão.) Adj. 1. Diz-se de homem esperto, finório. Velhaco, astuto, malicioso, esperto. Veja como o comportamento, a percepção se refletem na língua, tornando-a imprecisa e demonstrando como o criminoso pode ser admirado pela sociedade, a ponto de ser confundido com “inteligente, fino e arguto”, sem citar que “esperto” dá origem a “experto” que significa alguém que tem experiência, um perito. Ou seja, segundo o dicionário, “esperto” para os brasileiros que dizer “inteligente, fino, arguto”, mas também “finório, velhaco, astuto e malicioso”... Entenderam? Ora, o que esses espertalhões do Engenhão (aí a palavra seria aplicada corretamente) fizeram a lei tipifica como estelionato, fraude, que é crime definido assim pelo Código Penal: “Estelionato é o fato de o sujeito obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento.” A pena para crime de estelionato é de dois a seis anos de detenção com multa. Não há razão alguma para a admiração mal disfarçada que freqüentemente demonstramos por essas pequenas “espertezas” criminosas. Vamos usar as palavras certas. E não adianta reclamar do Renan e do Roriz & Cia, se você anda pelo acostamento, paga uma “cervejinha” para o guarda ou acha idiota perder seu precioso tempo numa fila, podendo furá-la. Você, meu amigo, não é esperto. Você é um delinqüente. PS: A nota não informa o que aconteceu com os “espertos” que foram pegos. Foram presos? Sentenciados a quantos anos? Por mim, mandava preparar um copão do “leite em pó” que levaram e mandava beber até o último gole...
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